Abre Aspas: Um pouquinho de Tati Bernardi…

tati
Com tanto potencial pra acabar com a minha vida, sabe o que ele quer? Me fazer feliz. Olha que desgraça. O moço quer me fazer feliz. E acabar com a maravilhosa sensação de ser miserável. E tirar de mim a única coisa que sei fazer direito nessa vida que é sofrer. Anos de aprimoramento e ele quer mudar todo o esquema. O moço quer me fazer feliz. Veja se pode. Não dá, assim não dá. Deveria ter cadeia pra esse tipo de elemento daninho. Pior é que vicia. Não é que acordei me achando hoje? Agora neguinho me trata mal e eu não deixo. Agora neguinho quer me judiar e eu mando pastar. Dei de achar que mereço ser amada. Veja se pode. Anos nos servindo de capacho, feliz da vida, e aí chega um desavisado com a coxa mais incrível do país e muda tudo. Até assoviando eu tô agora. Que desgraça. Ontem quase, quase, quase ele me tratou mal. Foi por muito pouco. Eu senti que a coisa tava vindo. Cruzei os dedos. Cheguei a implorar ao acaso. Vai, meu filho. Só um pouquinho. Me xinga, vai. Me dá uma apertada mais forte no braço. Fala de outra mulher. Atende algum amigo retardado bem na hora que eu tava falando dos meus medos. Manda eu calar a boca. Sei lá. Faz alguma coisa homem! E era piada. Era piadinha. Ele fez que tava bravo. E acabou. Já veio com o papo chato de que me ama e começou a melação de novo. Eita homem pra me beijar. Coisa chata. Minha mãe deveria me prender em casa, me proteger, sei lá. Onde já se viu andar com um homem desses. O homem me busca todas as vezes, me espera na porta, abre a porta do carro. Isso quando não me suspende no ar e fala 456 elogios em menos de cinco segundos. Pra piorar, ele ainda tem o pior dos defeitos da humanidade: ele esqueceu a ex namorada. Depois de trinta anos me relacionando só com homens obcecados por amores antigos, agora me aparece um obcecado por mim que nem lembra direito o nome da ex. Fala se tão de sacanagem comigo ou não? Como é que eu vou sofrer numa situação dessas? Como? Me diz? Durmo que é uma maravilha. A pele está incrível. A fome voltou. A vida tá de uma chatice ímpar. Alguém pode, por favor, me ajudar? Existe terapia pra tentar ser infeliz? Outro dia até me belisquei pra sofrer um pouquinho. Mas o desgraçado correu pra assoprar e dar beijinho.

Sobre a autora:

Tati Bernardi é paulistana e nasceu em abril de 1979. É formada em propaganda e marketing e fez pós graduação cinema, literatura e psicanálise. Trabalhou como redatora nas melhores agências de propaganda do país durante oito anos (W/Brasil, LeoBurnett, Neogama, Click…) e lançou os livros “A mulher que não prestava” e “Tô com vontade de alguma coisa que eu não sei o que é” pela Panda Books, o livro “Click Aqui” sobre propaganda e os romances infanto-juvenis “A menina da árvore” pela Ed. Moderna e “A menina que pensava demais” pela Pensamento Cultrix. Já foi colunista da TPM, VIP, Viagem & Turismo, Revista Alfa e atualmente colabora para a Folha de SP. Na Globo escreveu “Dicas de um Sedutor”. “Aline”, “Amor & Sexo” e as novelas “Vida da Gente” e “Sangue Bom”. Para o Multishow escreve o roteiro de “Meu passado me condena” e “De volta pra Pista”.Roteirizou o filme “Meu Passado me Condena”. Seu site  www.tatibernardi.com.br  tem mais de 300 mil views por mês e suas redes sociais somam mais de 1 milhão de seguidores.

(Fonte: www.tatibernardi.com.br)

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